Quem já leu alguns posts passados sabem que eu sou inspetor de alunos. Nessas últimas semanas estou correndo contra o tempo junto com as coordenadoras da escola para que todos os alunos façam o Simulado do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). A quantidade de pessoas para abranger é um dos fatores que demandam tempo para a realização desse trabalho, mas um fator é o que mais gasta tempo e paciência: ensinar os alunos a se logarem no site do Simulado.
O grande desafio na hora de ensinar não é o aluno entender ou não, e sim a paciência dele em te ouvir de verdade. Ele até fica quieto, mas você termina de explicar e ele pergunta exatamente aquilo que você ensinou. Por exemplo:
Eu:
- Pessoal, eu dei pra cada um de vocês uma sequencia de números com esse mesmo formato que está na lousa.
Lousa:
- 12345678-9
Eu:
- Os números que estiverem antes desse tracinho vcs usam para se logarem agora.
Aluno:
- Tá, mas quais números eu devo colocar?
Eu:
- Olha o número que eu te dei. Não tem um tracinho igual a esse da lousa?
Lousa:
- 12345678-9
Aluno:
- Ahn.
Eu:
- Então, esses números antes desse tracinho (mostro no papel do aluno) você tem que colocar nesse lugar aqui. (Mostro da tela do computador.)
Aluno:
- Ai! Não entendi nada. Que número eu tenho que colocar aqui mesmo?! Como eu vou colocar a senha se eu nunca entrei?! Nossa! Que difícil!
Calcula mais ou menos o tempo que eu tive que gastar pra fazer esse sujeito entender o que era pra fazer. Agora, pense que eu tive que fazer essa mesma explicação e um pouco mais para outros 10 alunos ou mais! Isso sem falar nas vezes que você tem que prometer chamar a Coordenação caso eles não fechem a boca e façam logo o Simulado.
Com esse breve relato eu quero destacar que o problema aqui não é a burrice dos jovens, pois burros eles não são. O problema é a paciência em ouvir que falta pra eles. Eles não querem resolver usando o método que você está ensinando. Eles querem que você faça por eles, ou que o jeito deles funcione. Se não funciona, ao invés de ter calma e ouvir melhor já concluem que aquilo é superdifícil e impossível de realizar e que não tem paciência para essas coisas e deixa eu abrir o WhatsApp e o Facebook para eu conversar com os meus amigos que eu ganho mais e é muito mais fácil e bem menos complicados que toda essa burocracia que nos obrigam a fazer e não sei por que ficam inventando essas coisas pra gente fazer e bla bla blá! (A falta de vírgulas foi proposital) Haja nervos e jogo de cintura para lidar com a geração "um clique, tudo certo".
O problema detectei, mas sei que não adianta reclamar do desafio e não pensar num jeito de resolvê-lo. Percebi, num dos grupos que atendi, que a ajuda de duas alunas que entenderam como funciona o processo agilizou o atendimento. Elas se solidarizaram e tomaram a iniciativa em ajudar os amigos que não entendiam. Diante dessa observação, chamarei um grupo de alunos e explicarei como de costume. Sem eles perceberem eu farei um teste e descobrirei quem se encaixará no perfil que eu preciso. Será um, no máximo dois alunos, que pedirei para me ajudar. Quem ensina, aprende; então posso dizer que essa ajuda tem um fim pedagógico.
Moral da história: ensinem os jovens a serem mais pacientes. Essa falta de paciência atrapalha eles e as pessoas em volta deles. Eu dei um exemplo do meu local de trabalho, mas nas estradas, por exemplo, as pessoas andam muito apressadas e sem paciência também. Daí um acidente acontece por excesso de velocidade e 100km de pessoas são obrigadas a esperar sem necessidade no trânsito JUNTO com o apressado. Você pode até insistir em ser o ninguém-manda-em-mim, que tá nem aí, mas sua vida não será mais simples por conta da sua teimosia.
O apressado come cru, come fruta verde, e faz a vida passar mais rápido. Engraçado: a vida é curta...
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016
A pressa nos tempos da escola
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Agora eu sou "tio" de escola!
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| O corredor ideal durante as aulas. Mas, não é sempre assim! |
Esse público que eu lido é composto por alunos de 6ª série até o 3º ano colegial. É preciso jogo de cintura, e a cada dia estou encontrando o meu ritmo. Quero ser eu mesmo. Parece frase de ex-Big Brother, mas é verdade. "Como assim, 'quero ser eu mesmo'?" talvez pergunte. É que eu não quero tentar impor a minha autoridade de inspetor de uma forma que pareça que eu estou tentando interpretar um personagem. Compreende o que falo? Não quero ser tipo aqueles professores que tentam se impor, mas você vê que ele se atrapalha todo na hora de falar, pois ele não demonstra a postura que ele tem que impor diante de seu público junto com sua personalidade. Ou seja, sai palavras da boca desses profissionais, mas não se apercebe atitude. Daí fica fácil perceber que ele tenta, sem sucesso, entrar num personagem que não é ele, e os alunos zombadores deitam e rolam.
Nas minhas primeiras semanas, o que eu mais faço é verificar se há aluno nos corredores durante as aulas, ou se estão voltando para as suas respectivas salas depois do intervalo. De primeira, faço mais ou menos o que aqueles organizadores de eventos fazem, que é chegar na pessoa e dizer "por favor, para a sua sala.", e apontar o caminho. Se estão no corredor, faço a mesma coisa. Esse é meu procedimento padrão, mas não é o único. Afinal, quando o volume é muito alto, eu preparo a minha voz para que ela se projete mais alto, mas sem gritar, e me certifico que estou próximo do aluno a quem me refiro. Senão, minha voz se mistura na multidão e a informação não chega aos seus ouvidos. Se eu já chamei e enrolam, aí eu já sou obrigado a adotar uma postura mais enérgica. "O que seria "uma postura mais enérgica?" ", você talvez pergunte. E eu respondo: depende da situação. Como em tudo que envolve interação com pessoas, não existe fórmula pronta, mas existe um norte a ser seguido. (E até que não estou me sentindo um perdido. Acho que o meu tempo de observação do comportamento adolescente desde os meus tempos de escola serviu de laboratório.)
Esses "métodos" - se é que se podem se chamar as coisas que tento de métodos - que eu estou usando estão funcionando, mesmo em casos em que o aluno faz questão de testar a minha paciência, de ver até onde vai o meu autodomínio. Esse tipo de público costuma apresentar muitos indivíduos que são contestadores, mas sem argumentos para contestar. Se baixar ao nível deles é muito fácil, mas é preciso ficar atento, pois se você baixar a guarda, a sua saúde fica comprometida, e o aluno ficará lá, rindo da sua cara, enquanto seus nervos estão em frangalhos.
Sempre há os contestadores, mas os jovens costumam ter algo de bom que muitos adultos não possuem: bom humor. O humor adolescente costuma ser irreverente. Justamente por isso é preciso que você, como inspetor, preste atenção se o que o aluno faz é só pra descontrair, ou se a intenção dele é te desmoralizar. Ou seja, não é uma profissão boa para os sempre sisudos. A palavra de ordem é: flexibilidade. É preciso mostrar que você leva a sério o seu trabalho, mas que não se leva a sério.
Faz 2 semanas que estou nesse serviço, e muita coisa ainda pode acontecer. Até agora eu tive experiência somente com os alunos, e ainda não fui posto pra falar com uma mãe, seja ela uma ouvinte passiva (não fala nada, e se fala é "aham" ou "ai, não sei mais o que fazer" e nada mais), ou participativa (que mostra ser realmente preocupada com o que o filho ou filha faz), ou barraqueira mesmo (Essa nem precisa de explicação!), mas quero a cada dia aprender a como agir bem nas diferentes situações que me serão apresentadas nesse meu novo emprego.
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